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SUSTENTABILIDADE QUE VIRA ARTE

Artista plástico realiza intervenções urbanas em São Paulo

Eduardo Srur

Eduardo Srur possui em seu DNA a vontade de respirar arte. Como diz, “… eu tenho no meu DNA de surfista, essa conexão e respeito pelas forças da natureza”. Porém, infelizmente em seu ateliê localizado em frente ao Rio Pinheiros, em São Paulo, hoje, o que respira é o cheiro ruim que vem das margens e córregos de um dos maiores rio urbano a céu aberto do mundo: o Rio Pinheiros. Essa foi sua principal inspiração para criar algumas intervenções urbanas que possuem o rio como tema, integradas entre a urbanidade e a sustentabilidade. Eduardo explica nessa entrevista quais são os objetivos da sua arte e revela as fases de sua mais nova exposição: As Margens do Rio Pinheiros.

Grappa: Como surgiu a ideia de relacionar suas intervenções urbanas com a sustentabilidade?

Eduardo Srur: Surgiu da janela do meu ateliê. Porque é dessa janela que eu vejo o Rio Pinheiros praticamente todos os dias. Foi um processo muito natural porque eu olhava para rio contaminado na janela de casa que não se pode usufruir e é um elemento abandonado pela cidade de São Paulo, assim como pela sociedade, pelas empresas e pelo governo. E além disso, o cheiro dele que fica circulando no ar me fez despertar um ponto de contato entre o meu trabalho como artista e essa questão da sustentabilidade. De como eu posso trazer de uma forma diferente para as pessoas, o olhar para a nossa paisagem urbana e a forma como ela é equivocada. A primeira intervenção que eu fiz no Rio Pinheiros foi em 2006, mas eu tenho no meu DNA de surfista, essa conexão e respeito pelas forças da natureza. Desde então, foram muitas intervenções, porque o artista é uma antena da sociedade e interessa a ele lidar com os erros da sociedade e para mim, esse erro é muito evidente. A questão de como nós tratamos a natureza – e quando eu digo a natureza não é no seu estado bruto, romântico, mas também a natureza que já foi alterada pelo homem em seus centros urbanos. E São Paulo é um exemplo disso. É uma cidade dinâmica, mas é uma cidade caótica cheia de equívocos, que não tem planejamento urbanístico e nós atropelamos as coisas e nesse atropelamento, detonamos o nosso entorno. E essa relação que o artista tem mais que é mais sensível sobre o seu entorno, para mim é muito eminente o trabalho que eu faço com as questões ambientais.

Grappa: O que está faltando para São Paulo olhar com mais carinho e atenção às questões da urbanidade e da sustentabilidade?

Eduardo: Está faltando pessoas como eu, por exemplo, que provocam olhar e que tocam na ferida. Está faltando uma política séria de planejamento urbanístico, responsabilidade dos governos, vergonha na cara das empresas. As grandes empresas que estão instaladas na frente do Rio Pinheiros que é a área mais nobre de São Paulo têm que se conscientizar que estão com um esgoto a céu aberto na janela deles. Eles precisam apoiar iniciativas que possam trazer melhorias de qualidade de vida para os paulistanos. É possível despoluir o rio e é possível ter uma qualidade de vida melhor para as pessoas que trabalham e vivem na cidade.

Grappa: Qual o objetivo da sua mais recente intervenção, intitulada “As Margens do Rio Pinheiros”?

Eduardo: O objetivo é conscientizar as pessoas, chamar as pessoas para enxergarem novamente o Rio Pinheiros e mostrar a triste condição em que ele se encontra com as águas totalmente poluídas, os córregos mortos e as margens contaminadas. Eu instalei uma série de intervenções que provocam o olhar de uma forma humorada, lúdica, porque são construções e concepções lúdicas, que fazem você enxergar a realidade de uma forma diferente. As pessoas param e pensam: isso não pode estar acontecendo, mas isso está acontecendo. Não é só o meu trabalho é também o estado em que o rio está. A exposição se chama “As Margens do Rio Pinheiros” porque são intervenções que irão acontecer às margens do rio pinheiros e porque tem um duplo sentido nesse nome porque o rio pinheiros também é um elemento marginalizado pela nossa sociedade.

Grappa: Quais são as fases dessa intervenção?

Eduardo: Primeiramente, no dia 19 de setembro, essas instalações foram distribuídas em vários pontos do rio pinheiros, como as principais pontes que cobrem o rio: cidade jardim, cidade universitária etc. Elas iniciaram com a obra trampolim, que são personagens instalados em uma ponte azul olhando a paisagem urbana. Eles não são personagens suicidas, mas representações dos moradores da cidade que estão a refletindo e a observando a partir desse ponto de vista que é na ponta do trampolim, prestes a pular. Na última semana de setembro nós teremos os portais, que foram concebidos com esculturas e alegorias de escolas de samba, por causa desse conceito que eu tenho de me apropriar de elementos que já existem na cidade e ressignificá-los. Eu escolhi dois córregos que possuem nomes de origem tupi-guarani: o Uberaba, que significa águas cristalinas e o Jaguaré, que significa local onde a onça habita. E a partir de outubro, a exposição terá um novo momento intitulado de “A Hora de a Onça Beber Água”. Serão dois infláveis gigantescos simbolizando a onça pintada nas margens do rio, pois é um do principal animal da nossa fauna e que está em risco de extinção.

Exposição Eduardo Srur (1)

Grappa: Essa intervenção também está relacionada ao problema da falta de água na cidade?

Eduardo: Acredita que não? Mas como disse anteriormente, o artista é uma antena da sociedade. Parece que ele anuncia crises e foi isso o que aconteceu neste caso. Esse projeto foi concebido no começo do ano passado e justamente agora que ele está acontecendo para a cidade, estamos vivendo a maior crise hídrica da região do Sudeste. Então, de fato há essa energia maior que circula e que serve também para chamar atenção para esse problema, porque parece que a gente está em uma contagem regressiva para acabar a água da cidade. E essas intervenções fazem uma critica contundente a maneira em que lidamos com os nossos recursos hídricos. É importante lembrar que a cidade de São Paulo nasceu nas margens dos rios Tietê e Pinheiros, nós devemos muito a esses rios e hoje eles estão nessa situação vergonhosa.

Grappa: Em algumas de suas intervenções, você utilizou o sistema crowdfunding. É possível arrecadar fundos fazer arte?

Eduardo: Sim e não. Meu trabalho é muito experimental e é isso que me dá energia para trabalhar tanto. E o crowdfunding nesse processo das margens do rio pinheiros não é o responsável porque a obra já está acontecendo e eu não dependi do sistema para patrocínio. Porém, eu envolvi esse sistema nessa exposição por dois motivos: o primeiro e principal deles é para que eu possa estabelecer um novo diálogo com pessoas interessadas em ter mais participação nesse processo artístico e chamar a atenção da cidade para a questão do rio pinheiros. Então, eu dou a possibilidade das pessoas se conectarem e se aproximarem de uma forma mais ativa por meio desse sistema. E o segundo motivo é que esses recursos serão destinados para um desdobramento da exposição que eu não vou revelar o que é durante o período expositivo. Porque a mágica do trabalho e o que me interessa da intervenção urbana é que ela pode começar de uma maneira e ter mudanças ao longo do percurso muitas vezes fora de controle. O sistema seria mais uma forma de financiamento para a realização dos trabalhos, mas eu não acredito que só ele tenha potência e capacidade de realizar grandes produções como as que eu faço.

Grappa: Suas intervenções já criaram polêmicas, como a do Touro Bandido na Cow Parade. Como você lida com isso e tenta explicar a finalidade de sua arte?

Eduardo: O artista tem que correr riscos. Ele é um personagem que está sempre rompendo a barreira do convencional, do que já foi feito e da rotina. O papel dele é tirar as pessoas da anestesia, gerar um curto circuito, sair dessa zona de conforto. E é uma dura missão exercida pelo artista e é por isso que eu realizo trabalhos que são subversivos, que contestam e que provocam. E vou continuar fazendo porque o papel do artista é justamente esse, sair de uma zona de conforto e levar as suas pesquisas e experimentações para uma área que ainda não foi explorada.

Grappa: Qual é a reação das pessoas em relação ao seu trabalho? Como você recebe esse retorno?

Eduardo: Das mais diferentes maneiras e isso é muito bom, porque como são intervenções que estão nas ruas atingindo pessoas diferentes, as respostas são muito diferentes e diversificadas. Um exemplo: se você ligar para a Polícia Militar ou para o Corpo de Bombeiros agora e dizer que tem uma pessoa na ponte do Rio Pinheiros para se jogar de lá, eles vão te deixar calmo e te informar que “essa pessoa” é uma intervenção urbana feita por um artista plástico. Esse rompimento de fronteiras – no qual a arte avança e amplia a sua mensagem de uma forma muita surpreendente – isso é muito enriquecedor e torna o trabalho conceitual e de interesse público maior do que o circuito artístico. Esses órgãos públicos ficaram cientes através da minha informação e da pressão do sistema com retornos diferentes do que a gente imaginava: de que tem um suicida na ponte.]

Exposição Eduardo Srur (3)

Grappa: Qual sua opinião sobre as recentes ciclovias implantadas pela prefeitura de São Paulo? Acredita que mais pessoas poderão aderir às bicicletas e deixar o carro em casa?

Eduardo: Creio que sim. Não sendo algo passivo é positivo. As ciclovias estão sendo implantadas de uma forma agressiva, não sei se seria o melhor caminho, mas é melhor isso do que nada. E o que precisa mudar na mentalidade das pessoas é deixar de enxergar a bicicleta como um objeto de lazer e começar a enxergá-la como um objeto de mobilidade urbana na cidade. Isso ainda não acontece em São Paulo. O motorista e o sistema vê muito a bicicleta como um objeto de lazer e entretenimento, não como uma possibilidade real de melhorar um pouco as condições da mobilidade urbana da capital paulista que é caótica.

 

 

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