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Entrevistas

Marcelo Yuka: “a música vai além do entretenimento”

Foto: Paulo Gouvêa

Um dos principais compositores dos anos 90, fundador e ex-baterista da banda “O Rappa”, Marcelo Yuka, de 45 anos de idade, sempre soube dar valor às coisas simples da vida, mesmo antes do assalto que o deixou paraplégico em 2000. As letras de suas músicas são marcadas por críticas inteligentes à sociedade, à política, à violência corriqueira. São dele composições como “Pescador de Ilusões” e “Minha Alma” (“A paz que eu não quero”). Ao parar de tocar bateria e se desvincular do grupo “O Rappa”, em 2001, Marcelo começou a desenvolver projetos paralelos: montou a banda F.U.R.T.O. e fundou entidades como a B.O.C.A. (Brigada Organizada de Cultura Ativista), que leva cultura e educação para comunidades carentes e entidades carcerárias. Com um CD solo e um documentário sobre sua vida em curso, Yuka se diz realizado em todos os aspectos da vida profissional. Em um bate papo interessante com a GRAPPA, o artista comenta sobre seus estilos musicais, sua saudade de tocar bateria, as dificuldades de ser cadeirante e as maleficências da sociedade em que vivemos.

Quando você descobriu que a música era um dom, uma paixão?

Desde que eu me entendo por gente… Eu pegava meus brinquedos todos e fazia de tambor, batucando sobre eles. Minha cronologia de vida é marcada por descobertas impactantes sobre a música. Sempre a achei muito glamurosa, muito especial, e todo esse universo parecia distante de mim. Então, quando eu tinha uns onze anos, fui assistir à apresentação de uma banda e percebi que eram garotos tocando rock and roll. Eu nunca fui fã de rock, mas aquilo me impactou, porque se eles naquela idade podiam fazer música, eu também poderia.

Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou quando entrou para o mundo da música, montando a banda “O Rappa”?

É um esforço muito grande você se manter vivo pela cultura nacional. Então, você pensar em um conceito musical e acreditar nele é primordial. Enfrentamos algumas barreiras, principalmente aqui no Rio, porque a Zona Sul é um feudo cercado: ou as coisas acontecem nessa região ou simplesmente não acontecem; tudo que foge dessa área não tem visibilidade. Romper essas fronteiras, esses muros, foi muito bacana para O Rappa, e ver a força não só do trabalho musical, mas também da poesia. Foi uma conquista tocar na rádio músicas como “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. Acredito que isso me fortaleceu.

Qual é o estilo musical que mais exerce influência sobre você?

Eu gosto não de MPB, mas de música popular mesmo, quase folclórica, do Brasil. Eu gosto do samba, que é um folclore que une o país todo em termos musicais. Tem um refinamento de poesia, que é feita por pessoas que não tiveram acesso à escolaridade e, mesmo assim, têm uma visão aguçada para isso. Essa sensibilidade muito alta me impressiona e me faz querer entender cada vez mais do samba. Mas hoje em dia, estou sendo muito influenciado pelo funk das favelas. Até porque eu acho que esse estilo sofre os mesmos preconceitos que o samba sofreu e, como tal, vai dar a volta por cima e vai ser apontado como o folclore do futuro.

Você participou do festival Black na Cena no mês passado. Por que essa identificação tão grande com a cultura Black?

A cultura negra me chama muito a atenção. É uma manifestação artística que eu estudei por muito tempo. Eles têm um leque enorme de ritmos, de possibilidades musicais. Hoje eu vejo que as coisas estão cada vez mais segmentadas, nada se mistura. Em São Paulo, por ser uma cidade de mercado muito forte, tudo é segmentado. Se alguém inventar o esporte de “cuspe ao alvo”, no dia seguinte já tem um clube para a prática, uma loja especializada, uma revista falando só disso… Então, um trabalho como o meu, que é abrangente e traz diferentes estilos, sempre soou como diferente, principalmente no começo. “O Rappa” foi se manter só depois do terceiro disco. Eu gosto de levar uma certa estranheza para os locais. Hoje eu posso tocar num festival de música negra, em um evento de rock, em festivais de música eletrônica…  Eu não quero fazer um gênero determinado. Quero que meu trabalho soe como autêntico.

Foto: Jeovanna Vieira

Você está ansioso para subir ao palco no Rock in Rio 2011?

Eu vou tocar com amigos lá, e isso me deixa contente. Mas tocar para 10 mil ou para apenas dez não faz diferença. Eu já participei de festivais com 15 mil pessoas que não me agregaram a nada, e já toquei para apenas dez pessoas que me renderam outros trabalhos, que repercutiram no boca a boca. É claro que estar em um festival desse porte é sempre maravilhoso, é ótimo para qualquer um. Mas um profissional tem que estar preparado para lidar com qualquer tipo de evento.

Se você pudesse escolher uma banda que mais lhe causa admiração, qual seria?

Eu nunca fui muito fã de rock, como já disse. Quando eu vi o “The Clash” pela primeira vez, eu não gostei. Mas depois eu vi que eles tinham uma coisa de postura, de atitude, e que uma banda poderia tocar qualquer gênero musical, mas era a atitude que marcava no final das contas. O “The Clash” gravou funk, reggae, dub, rock e sempre com uma atitude marcante, com uma postura impactante. O importante não é o estilo de música que você adota, e sim o que você quer fazer com a música. Vai além do entretenimento.

No CD solo que você está elaborando, a temática do amor é trazida com força, deixando de lado temas mais polêmicos, como a violência e a política. De que forma você chegou à conclusão de que o amor pode curar as maleficências da sociedade?

Esse amor pode ser pacificador, mas ele não é pacífico, porque é um outro tipo de energia. Não estou falando do amor entre homem e mulher, entre casais. Acredito que o Che Guevara não fez toda a sua militância baseada em rancor; ele fez tudo baseado em uma forte emoção de amor. Independente de erros ou acertos, ele trouxe uma mudança ideológica para o mundo, e é sobre essa força que eu estou falando em meu CD. Esse amor pode estar dentro do mercado de trabalho, pode ser uma atitude profissional, uma iniciativa de ativismo sócio-político, uma interação com a natureza… O amor é uma ferramenta milenar a ser usada. É uma pena que as pessoas sempre levem isso para o lado da religião…

Você está sempre em contato com comunidades carentes do Rio e entidades carcerárias, por meio do seu projeto “Brigada Organizada da Cultura Ativista” (B.O.C.A.). Qual é a principal carência desses grupos?

Falta a educação. Ela é capaz de dar suporte mesmo onde a família foi prejudicada pelo álcool, pelo vício, pelo desespero econômico. A educação é, com certeza, uma prevenção para os problemas de violência e tráfico de drogas. Uma bala é muito mais cara do que um lápis. A educação modifica pontos de vista de uma maneira muito mais sólida e duradoura do que apenas a repressão.  Eu acho que nós estamos vendo aí, com as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), um projeto de lavagem dos cartões postais do Rio de Janeiro para eventos de grande porte que o Brasil irá sediar. E isso é muito perigoso, pois já está ocorrendo um êxodo das populações carentes para fora do cartão postal. E aí começa a favelização novamente, mas fora dos olhos da sociedade.

Você está produzindo o CD de uma banda de pagode composta por presidiários do regime semiaberto. Quais são os principais desafios em lidar com esse grupo peculiar?

A minha maior dificuldade é fazer a equipe entender que eles são um grupo e que eu não estou oportunizando um ou outro. É fazê-los compreender que uma manifestação cultural pode ser não só um meio de ganhar a vida honestamente, como também uma redução de danos para aqueles que ainda estão privados de liberdade. E muitas vezes, pela visibilidade que eu tenho, eles podem achar que esse projeto está sendo um trampolim social para eles. Além disso, o grupo pode pensar que ser artista é só glamour e benefícios, e não é bem assim. Eu não sou dessas pessoas que acham que o cidadão vai se sentir melhor porque é artista. Trabalhar com expressão genuína, original e honesta é um desafio. Há também a questão de que o sistema carcerário não incentiva muito esse tipo de trabalho. A sorte é que eles estão no regime semiaberto e podem sair da penitenciária. A verdade é que o regime carcerário de São Paulo facilita mais as atividades artísticas dentro das prisões. Aqui no Rio é tudo muito mais repressor, e os agentes penitenciários são mais corruptos. Nós temos um outro tipo de violência aqui, em que se acredita em um saneamento social, e isso é difícil.

O que lhe motiva a ajudar na produção musical de um grupo de presidiários? Alguns deles podem inclusive ter cometido assalto ou latrocínio, crime parecido com o que você sofreu em 2000… Isso não lhe causa mágoa?

Eu não posso pensar por aí… É lógico que há certos aspectos da vida que ainda mexem muito comigo, mas esse trabalho não serve para julgar o outro. Eu não estou aqui para julgar ninguém, porque a sociedade já faz isso. Quando estou ali, produzindo esse grupo, estou realizando uma prestação de serviço, e não uma ajuda. E esse serviço me beneficia também, porque estou fazendo uma coisa em que acredito, em prol da melhoria da sociedade na qual eu vivo. Fora isso, há vivências que o dinheiro não paga, como, por exemplo, entender de que forma sentimentos tão bonitos podem surgir em locais tão absurdos como uma prisão.

Você como deficiente físico acredita que o Brasil tem estrutura suficiente para acolher esse público especial, ou ainda há muito para ser melhorado?

As autoridades nem pensam nisso. O Brasil, de uma maneira geral, cumpre burocracias. A pessoa não faz um banheiro para cadeirante no seu estabelecimento pensando no bem estar do deficiente, e sim pensando nos critérios de funcionamento, nas burocracias. As pessoas melhoram suas estruturas para driblar as regras, e não para potencializar o acesso. A sociedade só contempla aquele que está em possibilidade de produção; é uma cidade aberta para aquele que consome e que pode trabalhar. O que a sociedade não viu é que os 25 milhões de portadores de deficiência no Brasil têm suas potencialidades, muitas vezes até mais aguçadas por causa da deficiência.

Foto: Ding Musa

Além das limitações físicas, o que mudou depois do lamentável acidente de 2000? Como o seu modo de encarar a vida se modificou?

Para falar bem a verdade, o meu modo de encarar a vida não mudou muito. É lógico que o sofrimento é dor, mas eu não precisei perder a mobilidade nas pernas para dar valor a coisas simples. Eu gosto de plantas, de cachorro… Não tenho hábitos sofisticados.

Sente falta de tocar bateria ou a composição de músicas é mais importante?

Não, eu sinto muita falta mesmo. Eu não gosto nem de me aproximar da bateria. A coisa física, de você defender a música com todo o seu corpo, é muito fascinante. Sinto saudade da vibração que a baqueta exercia quando eu batia nos diversos tambores, nos pratos… Mas como músico, tive uma evolução grande não só porque o tempo passou e me deu experiência, mas também porque outras aptidões foram crescendo em função da lesão.

Foto: Jeovanna Vieira

Você está sendo constantemente filmado por Daniela Broitman para o documentário “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, que será lançado em setembro. É difícil ser perseguido pelas câmeras a todos os momentos?

Muito… Eu e a Daniela temos um bate-papo legal, mas o filme é uma coisa muito incisiva, que ocupa todas as áreas da minha vida. O cinema é das artes a mais prepotente. Ela quer que a rua pare, que o cachorro interrompa o seu latido… O cinema está sempre pedindo nossa devoção total, mas sem dar o retorno suficiente. Quando o documentarista liga a câmera, é muito fácil o personagem ficar simpático, agradável, inteligente. Mas na realidade as nossas vidas não são assim, e eu tenho orgulho de não ser também. Esse filme da Daniela tinha uma função específica, que era retratar o período em que o Brasil havia vetado o estudo das células embrionárias. Porém, depois que as pesquisas de células-tronco foram autorizadas, ela continuou me filmando… O documentário virou uma coisa muito mais ampla: a minha vida.

Você já disse em uma entrevista que gostaria de ser pai solteiro. Isso é verdade?

É verdade sim, mas o problema é que isso é muito difícil de ser colocado em prática. Quando eu converso com algum profissional da área, ele já acha que sou homossexual ou coisa do gênero. O deficiente físico sofre muitos estereótipos; um deles é pensar que nós somos assexuados, incapazes de fertilização. Cada caso é um caso, e eu não tenho esse problema. Quando fiquei paraplégico, achei que fosse ser privado de uma relação mais íntima, mas isso não ocorreu. Se meus relacionamentos amorosos não vingaram a ponto de eu ter um filho, não foi por causa da deficiência.

Qual é seu maior sonho?

Eu sou um cara que realizou 99% dos seus sonhos antes de completar 40 anos. Mas, no momento, acredito que meu principal desejo seria ter um filho mesmo.

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