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Entrevistas

Carlos Mazzei e a criatividade dos inventores

A afeição do advogado Carlos Mazzei por inventos e coisas inusitadas pode ter uma explicação genética. Afinal, seu avô inventou e patenteou a árvore artificial de Natal há muitos anos atrás. Depois de abrir um escritório de marcas e patentes em 1987, Carlos Mazzei começou a notar que os brasileiros criativos produzem inventos muito interessantes que ficam escondidos por falta de apoio e, pior, por falta de instrução. Então, para sanar esse problema, ele criou a Associação Nacional dos Inventores, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo principal fornecer assessoria aos inventores e estabelecer uma ponte entre eles e as empresas. Já em 1996, Carlos criou o Museu das Invenções, um dos principais pontos turísticos da cidade de São Paulo e único museu do ramo em toda a América Latina, recebendo cerca de dois mil visitantes mensalmente. Seu acervo conta com várias peças, desde as mais mirabolantes até as mais usuais e cotidianas. Além disso, Carlos Mazzei coordena o programa de televisão “Ideias e Invenções”, transmitido em várias emissoras há mais de 15 anos. Todos esses projetos concebidos por Mazzei surgiram com o intuito de divulgar o trabalho dos inventores pelo Brasil, ramo ainda pouquíssimo explorado em comparação a outros países.

Você é formado em Direito. Como surgiu o seu gosto por invenções?

Sou especialista na área de propriedade industrial, que é um ramo do Direito. Quando fazemos o curso de Direito, temos pouquíssimas aulas sobre esse tema, sobre marcas e patentes, sobre propriedade industrial. Então, eu quis me aperfeiçoar. E foi aí que eu descobri que os inventores brasileiros não tinham nenhum tipo de assessoria. Vi que esse era um nicho de mercado bacana porque, além de registrar o projeto dos inventores, eu poderia aproximá-los do meio empresarial. E foi isso que me fez ficar motivado para realizar esse trabalho.

De onde veio a ideia de criar a Associação Nacional dos Inventores?

Antes de criar a ANI, eu sempre assessorei os inventores individualmente, sem fazer parte de nenhuma entidade, nenhuma associação. Eu tinha um escritório de marcas e patentes à época e fui tentar algum tipo de apoio. Então, conversei com o Ministro da Ciência e Tecnologia e ele não me tratou muito bem, porque eu não era indicado por ninguém do governo e não fazia parte de nenhuma entidade. Eu saí do gabinete dele bastante chateado e resolvi fundar a Associação Nacional dos Inventores, em 1992, com o intuito de assessorar as mentes criativas.

E por que você sentiu a necessidade de criar o Museu das Invenções?

Porque eu guardava todos os protótipos dos inventores que me procuravam em caixas e mais caixas. Daí um dia eu pensei: “isso precisa ser mostrado publicamente”. Então, fundei o museu justamente para poder colocar em exposição pública a criatividade dos brasileiros.

Alguns inventos do Museu das Invenções, a Inventolândia

Quais são as invenções mais interessantes expostas no museu?

Um inventor brasileiro teve um problema de vazamento de água muito sério na casa dele e, devido a isso, inventou um aparelho especial que desliga automaticamente a saída de água do registro quando um cano estoura. Isso evita aqueles números absurdos na fatura do final do mês. Eu mesmo tive esse problema em minha casa e o inventor apareceu 40 dias depois de eu ter pagado uma conta de oito mil reais de água. Nós estamos tentando negociar essa invenção com algumas empresas e em breve esse produto irá para o mercado. Outro invento muito interessante, concebido também por um brasileiro ligado à Associação Nacional dos Inventores, é uma válvula que inibe o problema de vazamento de gás. Essa válvula faz com que o registro de gás se feche automaticamente em qualquer situação de vazamento. Para você ter uma ideia, esse projeto é tão interessante que a primeira empresa em que batemos na porta comprou o projeto, e o produto começará a ser comercializado em 2012.

Alguns inventos do Museu das Invenções, a Inventolândia

E de onde surge a criatividade de uma pessoa para conceber uma nova invenção?

A criatividade pode vir até de um sonho. Muitos inventores que me procuram sonham com produtos inovadores que muitas vezes não têm nada a ver com a área de atuação deles no mercado de trabalho. Normalmente, os inventores mais criativos são aqueles que dispõem de tempo para pensar, como os aposentados e os desempregados. Eles são os que apresentam os projetos mais interessantes, por terem mais tempo para aguçar a criatividade.

O que é mais complicado: ter a percepção para inventar algo criativo ou patentear esse invento para ganhar dinheiro com ele? O que é mais difícil: o processo criativo em si ou a prática?

A prática, com certeza, é mais complicada. Transformar uma ideia em um produto campeão de mercado é mais ardiloso do que inventar o produto em si. É difícil. Se fosse fácil, todos os inventos do mundo fariam sucesso. Estatísticas internacionais dizem que apenas 5% do que é inventado no mundo vira produto.

Você acredita que a receptividade das empresas em aceitar novos inventos tem sido grande?

Sim. Principalmente de dois anos para cá, as empresas têm se interessado muito nos novos projetos. Há tempos atrás, o Brasil estava em uma outra fase onde as coisas eram mais caras, não havia concorrentes internacionais, a inovação tecnológica não era uma prioridade. Hoje esse quadro mudou, e as inovações são cada vez mais necessárias.

Qual é o principal desafio que o inventor enfrenta na sociedade brasileira atualmente?

Ter o mérito de ver o projeto dele no mercado. Ver que alguém acreditou nele e apostou em sua ideia. Esse é o principal desafio. Porque o empresário que banca, que faz a movimentação financeira e que investe tem que confiar piamente no projeto do inventor.

Você é membro atuante do comitê executivo da Federação Internacional de Associações de Inventores, órgão sediado na Suíça. Quais as principais diferenças entre o registro de marcas e patentes no Brasil e no exterior? O estímulo dado aos inventores é o mesmo em todas as partes do mundo? O que muda?

Lá no exterior é outra história. Lá eles dão muito valor para os inventores independentes. Há um financiamento governamental, os bancos privados também incentivam monetariamente. Aqui já é mais complicado, o Brasil não dá incentivo nenhum. Mas em compensação, os brasileiros são muito mais criativos do que vários inventores internacionais. Disso eu sei porque participo ativamente de feiras lá fora, então eu vejo até onde vai a criatividade dos inventores norte-americanos e japoneses em comparação a nós, brasileiros, que sabemos sair de determinados problemas com mais facilidade do que os norte-americanos, principalmente.

O que poderia ser modificado em relação ao incentivo do governo brasileiro e das organizações privadas às invenções?

Analisa comigo: uma nova invenção no mercado gera empregos, além de suscitar um benefício muito grande para a empresa, que estará trabalhando com um produto patenteado. Na verdade, esse é um monopólio, um dos poucos monopólios sadios que ainda temos no planeta. Então, o empresário que adotar um invento terá a probabilidade de prosperar com ele. Quem acaba se beneficiando com isso? O governo (pela arrecadação de impostos), os próprios bancos (pelos financiamentos), os funcionários (pela geração de empregos). A cadeia produtiva em si deveria incentivar as invenções no Brasil. O inventor independente, que não participa de centros de pesquisa ou de universidades, não tem apoio nenhum. Esse tipo de inventor não consegue dinheiro para fazer uma patente ou um protótipo do seu invento: ele não tem financiamento no banco para isso, não tem apoio governamental, e acaba ficando desorientado. Muitas vezes ele até acha que é necessário montar uma fábrica para empreender o seu invento, o que não é verdade.

Como a postura do governo brasileiro deveria mudar frente às invenções e aos inventores?

Em primeiro lugar, o governo deveria dar mais força para o INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), a fim de que as coisas sejam feitas mais rapidamente. Hoje, para você ter a concessão de uma carta-patente de invenção ou de modelo de utilidade há uma demora de oito anos. É um absurdo, é muito tempo. O INPI até está tentando se reestruturar, contratando mais examinadores, mas é complicado, porque há muita burocracia envolvida. Por outro lado, o governo pode ajudar não concentrando a verba somente em universidades, e sim em associações de inventores, auxiliando as organizações que ajudam os inventores independentes. A própria Associação Nacional dos Inventores, que eu presido, tem condições de dar muitos resultados para a sociedade com um auxílio financeiro do governo.

Qual é o seu principal contentamento em lidar com inventores há mais de 20 anos?

Ver o começo, o meio e o fim de uma negociação. É quando o inventor aparece com uma ideia, a gente registra a patente no nome dele, procura uma empresa que acredita no invento, lança o produto no mercado e vê o inventor ganhar dinheiro. Fazer o ciclo completo, isso é o que me dá mais prazer. E tudo sem nenhum tostão do governo.

Em sua opinião, qual foi o inventor mais promissor de todos os tempos?

Thomas Alva Edison, com certeza. Muitos produtos que estão no mercado hoje foram inventados por ele, não só a lâmpada elétrica. A máquina de waffle, o ventilador, o aquecedor de ambiente e a primeira boneca falante do mundo são exemplos de inventos que saíram dos laboratórios de Thomas Edison. Ele contratava inventores que o ajudavam a desenvolver as patentes, as quais (mais de 1.500 patentes) eram todas depositadas no nome dele.

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4 comentários sobre “Carlos Mazzei e a criatividade dos inventores

  1. Todo o texto do sr. Mazzei é de uma incontestavel verdade. Há mais de trinta anos, pautei pelos caminhos de inventor. Desde 1977 criei um Projeto, que daria ao Rio Grande,o único Parque Temático, semelhante a Disney e ao Beto Carreiro. Está tudo pronto, com mais de cem atrações diferenciadas,custos,etc sem conseguir formalizar o Projeto em sí. O local escolhido é fenomenal. No centro da Grande Porto Alegre. Com Aeroporto, e duas BRs.

    Todas informações estão disponiveis: Victor@schmitao.com.br

    O segundo Projeto é do ELÉVE, um pequeno elevador, projetado para a parte externa, ou interna de prédios com até 4 andares ( Condominios ) onde o Elève, transporta compras, pizzas, sem precisar passar pela portaria, o que lhe confere o quesito de SEGURANÇA TOTAL. As compras do Super podem ser elevadas desde a garagem se lá tiver instalado um ELÉVE. O ELÈVE se presta tambem, para Hospitais, sobrados, Industrias, Repartições Públicas, Comercios, etc inclusiveis para subsolos. O Elevador corre pela parede externa do prédio, junto as sacadas ou janelas dos andares superiores, onde serão acessadas por um controle eletronico.

    Estou aberto a todas negociações. Depois de trinta anos de custos, sustentados por mim, estou exaurido monetáriamente, inclusive meus familiares não apoiam mais meus gastos. Procuro Empresas ou Bancos, que se associem ao Projeto ELÉVE, como tambem do PARQUE TEMATICO.

    Com 73 anos de idade, meu sonho é que um dos meus Projetos sejam alavancados. Obrigado por sua atenção.

    Victor Milton Schmitz Rua Salgado Filho 420 93320-070 -Centro Novo Hamburgo -RS

    051 3595 3113 cel 98 07 43 43

    Publicado por victor milton schmitz | 01/07/2011, 11:56 AM
  2. no brasil infelismente a nossa criatividade como inventor e tachada pela grande maioria como loucura ilusao e isso e algo que nos atrapalha e inibe o nosso dom de sonhar com melhorrias e com ferramentas que ainda nao existem puramente pela burocracia emposta pelos nossos puliticos que nao conseguen imaginar nem como vai ser o proscimo minuto que dira o futuro!!!!

    Publicado por valdeir dos santos perreira | 08/04/2013, 12:08 AM
  3. Adorei os esclarecimentos do Dr. Carlos , pois tenho um Projeto e não sabia como dar andamento. Ficarei no aguardo de como ter um contato mais próximo para dialogo mais prolongado,sendo grata pelo pouco que aprendi Estrelaine2@hotmail.com Obrigada

    Publicado por Dalva Conseição | 16/10/2013, 1:40 PM

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