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Entrevistas

Cintia Abravanel: uma eterna apaixonada pelo teatro

A produtora de teatro Cintia Abravanel tem um dos sobrenomes mais conhecidos de todo o país. Afinal, ela é filha do famoso comunicador Silvio Santos, o empresário dono do Sistema Brasileiro de Televisão. No entanto, Cintia nunca deixou que esse fator extinguisse os maiores sonhos de sua vida: ser mãe e, acima de tudo, escolher seus caminhos por conta própria. Ao contrário do que muitos fariam, Cintia optou por não trabalhar no SBT. Foi somente com trinta anos de idade, depois de criar seus filhos, que Cintia descobriu sua verdadeira paixão: as artes cênicas. Ao assumir a direção do Teatro Imprensa, na década de 90, a produtora de teatro passou a enxergar a beleza da arte por meio dos palcos e da atuação. A primeira peça que produziu foi “No Reio das Águas Claras”, de Monteiro Lobato. Depois, teve a oportunidade de adaptar outras obras, como “O Terror dos Mares” (também de Monteiro Lobato), “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” (de Jorge Amado, apresentada para 300 mil expectadores), “O Poeta e as Andorinhas” (de Oscar Wilde), “A Hora da Estrela” (de Clarice Lispector) e “Pinóquio”, todas encenadas para o público infanto-juvenil. Além de produtora, Cintia é diretora-presidente do Centro Cultural Grupo Sílvio Santos, entidade sem fins lucrativos que oferece peças de teatro gratuitas para professores e estudantes da rede pública de ensino, com o intuito de melhorar a educação brasileira. Hoje, Cintia afirma que espalhar a cultura sem distinções se tornou algo inerente a ela, algo essencial e indispensável.

Além de seu pai ser um grande nome da TV brasileira e poder lhe auxiliar com um cargo ou uma colocação no SBT, as pessoas costumavam dizer para você que “o teatro não dá dinheiro”. Levando tudo isso em consideração, por que você decidiu se dedicar ao teatro? Quando você soube que havia nascido para trabalhar com isso?

Acredito que a intenção de meu pai foi ensinar para mim um ofício: o de produzir. Na verdade, eu não sabia que havia nascido para isso. Aos poucos, fui descobrindo minha paixão pelas artes e pela criação. Com o tempo, esse ofício de produzir transformou-se em paixão vital.

Como foi a experiência de descobrir o seu ramo de trabalho aos 30 anos de idade? Acredita que tudo aconteceu no tempo certo?

Acredito que tudo tem seu tempo. Eu precisava da bagagem de vida que só se tem aos 30 anos para descobrir o quanto o teatro transforma as crianças. Afinal, eu já era mãe quando produzi meu primeiro espetáculo. Foi a maturidade que me permitiu trabalhar da maneira como trabalhei com Lobato, por exemplo.

Qual é o aspecto mais gratificante e compensador do teatro?

O poder de transformação que essa arte tem.

Como você aprendeu tudo o que sabe sobre produção em teatro?

Como tudo em minha vida, fazendo. Tendo a humildade de aprender com os profissionais da área em todos os níveis: criação, direção, técnica, elenco… E, principalmente, aprendendo com o público ao olhar para suas reais necessidades. Trabalhar com o público infantil e com educadores é ter sempre um olhar crítico para o teatro.

Quais são as principais dificuldades de trabalhar com atores, com cenários, com figurinos?

Com atores, cenários, figurinos, nenhuma. A dificuldade real é conseguir unir o racional (monetário) ao emocional (arte). Difícil é contemplar todos os sonhos numa fria planilha de custos. Pior do que isso é transformar a arte em um produto comercialmente viável sem que haja perda de sua essência.

De onde surgiu a sua identificação com o teatro infanto-juvenil? Por que começou a produzir peças para esse tipo específico de público?

Tive sorte de ter sido uma criança privilegiada e de ter acesso a bons produtos culturais. Além disso, quando iniciei minha carreira, eu já era mãe, por isso me empenhei em produzir espetáculos de qualidade e possibilitar acesso a todos. Acredito piamente que as pessoas que apreciam a arte têm uma forma diferenciada de ver o mundo e de encarar a vida.

Em sua opinião, como o teatro pode estar ligado à educação de crianças e jovens?

O fazer teatral é lúdico por si só. Talvez não exista arte mais completa do que o teatro, por haver nele todas as outras artes: literatura, música, artes plásticas, arquitetura, dança, expressão corporal. Além disso, o teatro é multidisciplinar. Nele cabem Filosofia, História, Ciências, Ética, Psicologia… Trata-se de uma forma de retratar mundos, provocar a reflexão e possibilitar a alteração da ordem estabelecida. Daí sua função educativa.

De onde surgiu a ideia de levar o teatro gratuito para a rede pública de ensino? O que você tem aprendido com isso?

Minha trajetória foi me levando para esse caminho. Conforme fui crescendo profissionalmente, surgiu essa possibilidade de chegar às crianças da escola pública pelo caminho das artes. Hoje, não me vejo fazendo outra coisa. A felicidade está em dar acesso à arte (e à sua consequente transformação) a todas as crianças e jovens. Isso é impagável.

Um de seus espetáculos mais famosos é “No Reino das Águas Claras”, peça adaptada da obra “Reinações de Narizinho” com a qual você ganhou vários prêmios. Como foi a experiência de adaptar Monteiro Lobato? Em sua opinião, por que a peça ganhou tantos prêmios?

Foi uma honra aprender a fazer teatro com a obra de Lobato. Apresentá-lo a centenas de pessoas com a integridade que ele merece foi um prazer. Prêmios, é claro, representam um reconhecimento a um bom trabalho. No caso do Reino, os prêmios foram resultado de um conjunto de fatores: a beleza do texto de Lobato e a competência dos artistas envolvidos no trabalho.

Como surgiu a ideia de arrecadar alimentos e agasalhos em troca de ingressos para as peças, em ações sócio-culturais? Para onde vão todos esses materiais?

Sempre que é possível unir nosso trabalho – seja qual for – com a responsabilidade social é perfeito. Poder alimentar a alma das pessoas com arte (teatro) e possibilitar a alimentação concreta de outras pessoas constitui uma excelente parceria, por isso essa prática está presente em todos os meus projetos. As doações são destinadas a instituições que, como nós, são comprometidas com os trabalhos que realizam. Em um de nossos projetos – o Vitrine, em que incentivamos financeiramente grupos de teatro – chegamos a arrecadar quase duas toneladas de leite em pó, doados para a Cruz Vermelha.

Quais são os seus planos para o futuro em relação ao teatro?

Na verdade, eu gostaria de saber quais são os planos do teatro para o meu futuro. Sempre foi assim.

Para finalizar, defina TEATRO em uma palavra.

Essencial.

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Discussão

Um comentário sobre “Cintia Abravanel: uma eterna apaixonada pelo teatro

  1. Adorei a entrevista, é muito legal saber que existem pessoas como a Cintia, que apesar da fortuna do pai, trabalha com amor e ajuda muitas pessoas levando cultura para quem não teria acesso. Parabéns Cintia e parabéns ao pai tbm que conseguiu passar esses valores para a filha.

    Publicado por Sandra Petrelli | 09/06/2011, 3:44 PM

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