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Entrevistas

Um século de Colégio Dante Alighieri – Entrevista com o presidente

José de Oliveira Messina afirma ter 183 anos de idade. “100 de experiência e 83 de vida!”, brinca, esbanjando vitalidade e bom humor. Após décadas de profissão como advogado, hoje está no segundo mandato como presidente do Colégio Dante Alighieri, um dos mais importantes e reconhecidos estabelecimentos de ensino da cidade de São Paulo, fundado por imigrantes italianos. Messina sempre teve uma ligação muito estreita com a instituição. Estudou no Dante de 1934 a 1946, matriculando posteriormente seus filhos e netos. Atualmente, tem a honra de presidir o colégio no ano em que a instituição completa 100 anos. Uma pequena parte dessa história centenária vem sendo acompanhada de perto pela GRAPPA, que atende o Dante na produção de peças de comunicação e anúncios publicitários. Conversamos com o presidente Messina sobre suas memórias, opiniões e virtudes do colégio.

O lado italiano vem por parte do seu pai, que nasceu na Sicília. O senhor ainda visita o país? Possui parentes por lá?

Sim, eu tenho primos na Sicília. Em razão de herança, tenho propriedades lá que conservo como patrimônio dos meus avós, com muito amor. Algumas propriedades ficam na zona histórica da Sicília, em Riposto, uma comuna italiana. A primeira escola náutica da Itália surgiu no porto de Risposto, que hoje é um ponto turístico maravilhoso. Era desse porto que, em 1919, saíam as mercadorias que o meu avô mandava para estabelecer comércio com o Brasil. Em 1920, depois da Primeira Guerra Mundial que devastou a Itália, meu pai resolveu embarcar para o Brasil e se estabeleceu no país, onde atuou como banqueiro e comerciante.

O que mais lhe agrada na Itália?

A Itália é como o Brasil. Você não se cansa de verificar os lugares. Cada tijolo tem uma história, e isso é inacreditável. Você chega em municípios pequenos, em comunidades, e vê coisas que remontam os romanos e até os normandos e os árabes (visto que a Sicília foi invadida pelos árabes durante 400 anos). Isso é muito encantador.

E a gastronomia italiana? O que o senhor mais aprecia?

Além do lado italiano, eu sempre faço questão de colocar também o meu lado de ascendência lusitana (já que a minha mãe é filha de português). A cozinha portuguesa e a italiana são imbatíveis. Na parte italiana, gosto muito do risoto e da pasta, e dos pratos sicilianos que levam peixe.

Como o senhor vê a influência cultural dos imigrantes italianos aqui no Brasil?

Eu vejo com muita alegria. Hoje, só em São Paulo, de seis a sete milhões de pessoas são descendentes de italianos. E o bonito é perceber que os imigrantes italianos começaram humildemente. A grande maioria chegou para trabalhar no campo, nas culturas do café e da cana, e com humildade eles venceram. Mesmo aqueles que vieram com uma certa condição financeira acabaram se amalgamando no Brasil. O meu pai, por exemplo, veio para cá para ficar somente dois anos e acabou se instalando em terras brasileiras. Os italianos buscaram, acima de tudo, desenvolver sua cultura e transmitir essa riqueza cultural da Itália para o Brasil. Os imigrantes italianos sempre tiveram essa vontade de não ficarem estacionados dentro do materialismo.

O senhor está completando 60 anos de advocacia. O Dante o acompanhou na vida acadêmica?

Sempre levei o nome do colégio comigo. Em todos os lugares onde eu compareço, digo sempre: “Sou ex-aluno do colégio Dante Alighieri com muita honra”. Ainda recentemente, quando recebi a medalha Dom João VI no Tribunal Militar, fui orador da turma e, em meu discurso, fiz questão de falar que sou um educador formado no colégio Dante Alighieri. Isso é a maior medalha que eu tenho no meu peito.

Quais são as principais lembranças que o senhor tem da época de colégio?

Lembro-me de minha primeira professora, Maria do Carmo Gualtieri. Em 1990, quando eu tomei posse na Academia Paulista de Direito como presidente, eu fiz questão de trazer a Academia inteira para a minha posse aqui no colégio. Mandei um convitinho para a minha professora e ela respondeu com a mesma caligrafia de quando me dava aula décadas atrás. Além disso, lembro-me do professor Borello, de Física. Ele se sentava no meio da sala, naquelas cadeiras antigas de madeira, mas em uma cadeira que não tinha os quatro pés no chão. Era uma cadeira de um pé só, onde ele dava aula sobre o equilíbrio. “Desafio qualquer um de vocês a fazerem exatamente isso”, dizia ele. Outra coisa da qual me lembro: no meu tempo o aluno era compelido a decorar e declamar poesias, algo que hoje em dia está esquecido. Nós treinávamos a arte do discurso.

O senhor tem alguma história peculiar com algum professor do Dante?

Tenho uma história engraçada com o professor Calia, de Música. Metade da aula dele era parte teórica e a outra metade era parte prática, na qual íamos para a sala de piano. Nesse momento, fazíamos um coro, cantando a música de forma nasal. Porém, o professor Calia percebeu que havia sempre um cidadão que destoava dos demais, mas ele não conseguia descobrir quem era. Então o professor limpava a madeira do piano com um lenço, fazendo com que a superfície ficasse parecendo um espelho, e por ali ele enxergava todos os alunos. Num belo dia ele me pegou e disse: “Você estraga esse coro, não adianta… Mas não se preocupe. Se você não abrir mais a boca, eu te dou dez pelo resto do ano”. Além dessa, tenho também uma história muito interessante com o professor Fulvio Pennacchi, o grande artista e pintor. Em um dia de aula, ele disse: “Hoje vamos fazer um ensaio de natureza morta”. Então, ele colocou um vaso em cima da mesa e pediu para os alunos desenharem. Na semana seguinte, ele trouxe as notas. O meu trabalho ficou por último, e ele disse: “Eu vou aconselhar esse jovem que apresentou este último trabalho a não desenhar nunca mais. Messina, eu coloquei aqui na mesa uma natureza morta e você me traz um elefante? Mas não se preocupe… Vou lhe dar uma nota boa. Mas nunca mais se atreva a desenhar na vida!”

E qual é o seu cantinho preferido do colégio?

Antigamente, a escadaria enorme que dá acesso ao pátio era uma simples escadinha de ferro. Embaixo dessa escada havia um porão muito grande, onde nós fizemos uma sala que serviu para sediar nossa Associação de Alunos, uma associação cultural e esportiva da qual eu fui presidente também, quando tinha 15 anos de idade. Então, aquele porão traz para nós reminiscências e saudade, porque ali nós fazíamos todas as reuniões.

O senhor instituiu a Ordem do Sino (uma homenagem a ex-alunos do Dante que se destacaram na sociedade, na cultura, na política ou na educação; entre os mais de 50 condecorados estão nomes como Celso Lafer e Costanza Pascolato). De onde veio a ideia?

Quando eu visitei o Dante pela primeira vez, em 1934, estava de mãos dadas com a minha mãe. Logo que eu entrei, ouvi o barulho do sino e perguntei: “Mãe, você está nos levando para uma igreja?” E ela respondeu: “Não, meu filho, esse é o sino da escola”. E isso ficou na minha cabeça por um bom tempo, me marcou. Então, uns anos atrás, resolvemos criar a Ordem do Sino, que surgiu justamente com o intuito de homenagear os ex-alunos que se distinguem; mais de cinquenta já foram homenageados. Este ano nós teremos duas homenagens: uma na Câmara Municipal e outra na Assembleia Legislativa. Serve para os ex-alunos nunca se esquecerem do barulhinho do sino do Dante.

Passando tantos anos em contato com o Dante (primeiro como aluno e atualmente como presidente), o senhor deve ter observado muitas mudanças na instituição. Comente um pouco sobre elas.

As mudanças, principalmente na área do ensino, não surgem em um estalo de dedos. Elas acontecem em um ritmo que não pode ser acelerado, caso contrário ocorrem erros. Tudo deve amadurecer aos poucos. A meu ver, o colégio tem essa grande virtude; foi caminhando, passo a passo, vagarosamente, mantendo algo que hoje em dia é repudiado: a tradição, a história, o amor. Muitos colégios pararam no tempo, mas nós nos desenvolvemos ao mesmo tempo em que pregamos a tradição.

Se o senhor fosse político, o que faria de diferente na educação?

Todo mundo hoje está massificado; todos vão fazer as mesmas coisas. Se eu pudesse modificar o ensino, eu traria matérias mais específicas dependendo da profissão que o jovem quer seguir. No nosso tempo, se uma pessoa optava por ser cientista, ela tinha um cuidado especial com alguns assuntos, como física, química, matemática e biologia. No meu caso, que sempre fui um humanista, tive matérias como latim, grego, história, geografia, ciências humanas e filosofia. Afinal, para quê eu precisaria aprender física a fundo? Quando o jovem aprende todas as matérias e assuntos com profundidade excessiva, ela acaba se desnorteando, sem saber qual carreira seguir.

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Discussão

Um comentário sobre “Um século de Colégio Dante Alighieri – Entrevista com o presidente

  1. Espetaculares a entrevista e o entrevistado. Sorte do Dante possuir um presidente com a cabeça de um “giovane” ; porém com a sabedoria dos “antigos”.

    Publicado por Pompeo Gallinella | 13/06/2011, 4:46 PM

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