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Entrevistas

Rosangela Petta e a Oficina de Escrita Criativa

Com formação superior em Jornalismo e mestrado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), Rosangela Petta foi desenvolvendo com amor e paciência a sua destreza para o estilo de Escrita Criativa. A profissional já trabalhou em veículos de renome como a TV Cultura, o Estadão e a Playboy, além de ter lecionado na Faculdade Cásper Líbero por sete anos. Afora a parte do jornalismo de reportagem, Rosangela foi e ainda é consultora em comunicação de grandes empresas. Depois de toda a bagagem adquirida e de todas as oficinas de criação de que participou, Rosangela pode perceber duas coisas: havia chegado a hora de aplicar em algum lugar a sua experiência na área e, ao mesmo tempo, mudanças nas oficinas literárias precisavam ser urgentemente pensadas – algo que fugisse dos moldes ultrapassados. Foi assim que ela criou a Oficina de Escrita Criativa, que tem o objetivo de preparar os participantes para escreverem textos de qualidade e com marca autoral. São cursos que estão ganhando cada vez mais reconhecimento e prestígio (o próprio Curso Abril de Jornalismo 2011, por exemplo, teve um de seus módulos ministrado na Oficina). Na perspicaz entrevista a seguir, Rosangela Petta comenta sobre qualidade de escrita, convergência de novas tecnologias e possíveis pautas para o Jornalismo Literário.

Por que você optou pelo teatro? Exerce alguma atividade ligada à área teatral?

A primeira oficina de criação que fiz foi, justamente, de dramaturgia: um grupo de amigos, todos jornalistas, queria sair da rotina, escrever algo que não fosse jornalismo. Tomei a iniciativa de telefonar pro Alcides Nogueira, que eu havia entrevistado há muito tempo, perguntando se ele topava participar de uns encontros caseiros para falar de teatro. E como o Tide também é roteirista, resolveu dar uns exercícios sobre telenovela. Foi ele quem me aconselhou a estudar os grandes, Tchecov, Shakespeare, Ibsen. Depois, fiz a Oficina de Autor-Roteirista da TV Globo. Em seguida, escrevi um longa-metragem que foi parar no Laboratório de Roteiros do Sundance Institute. Como me faltava uma formação teórica mais profunda, fiz a pós-graduação em artes cênicas.

Você já trabalhou em diversos jornais e revistas, além de ter realizado consultoria em comunicação para empresas de renome. Como é sair dessas áreas e gerir o seu próprio projeto, a “Oficina de Escrita Criativa”?

É uma consequência natural. Especialmente para jornalistas da minha geração, muitos trabalham fora das redações. Acredito que em outras carreiras aconteça algo parecido: chega um momento em que você deseja colocar em algum lugar a experiência que adquiriu. Ainda dou consultoria para empresas jornalísticas e para o chamado mundo corporativo, um trabalho que adoro. A Oficina surgiu dessa experiência como consultora e professora.

Por que decidiu deixar a profissão de professora na Faculdade Cásper Líbero?

Eu não deixei: me licenciei. Depois de sete anos e meio dando aulas para a graduação, resolvi “repensar a relação”, vamos dizer. Estava cansada, sem tempo para criar, para meus projetos pessoais. Em 2009, tentei o processo seletivo para a arqui-famosa Oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil para me reencontrar com a ficção. Durante todo o ano de 2010, indo uma vez por semana para Porto Alegre, retomei o projeto de criar algo parecido em São Paulo, que era uma espécie de fantasia que eu tinha há muito tempo. Propus ao Assis trazer o programa dele pra cá; ele se entusiasmou e aqui estamos.

Como surgiu a ideia de criar a Oficina de Escrita Criativa? Quais resultados que vocês já estão colhendo?

Quando procurei fazer oficinas literárias, há uns 15 anos, o que encontrei foram cursos formatados em palestras. Uns são bem bons, recomendo. O problema é que, salvo raríssimas exceções, a maioria não tem exercícios práticos, não discute as sutilezas da técnica. Passei anos pesquisando o assunto, estudando programas de creative writing de universidades como Columbia e Berkeley, além de algumas iniciativas europeias independentes. Fiz também um minucioso estudo mercadológico que resultou em um paper, estruturando todo o negócio. Em 2009, fiz as contas, vi que era viável. No ano passado, refiz todas as contas, respirei fundo e decidi raspar minha caderneta de poupança para montar a Oficina. Abrimos as portas em 18 de novembro de 2010 e acho que foi uma decisão acertada: cinco cursos lotados, novos cursos surgindo, empresas pedindo nossos serviços justamente pelo diferencial da metodologia… Acredito que era isso que estava faltando: enfatizar a técnica, escrever, ler, reescrever, discutir, cortar, fazer de novo. Dá mais trabalho, claro, mas o resultado para os participantes é mais concreto e acentuado.

Quais são os planos da Oficina para o futuro?

Crescer sem perder a qualidade. Ou seja: crescer sem pressa, na medida, solidamente. Nossas turmas têm no máximo 15 vagas, para dar um atendimento individualizado, favorecer a interlocução crítica e, consequentemente, obter resultados. Por isso, manter a excelência dos programas e dos ministrantes é o mais importante. Temos que formar ministrantes de escrita criativa, pois a postura que adotamos ainda é muito rara no Brasil. Por tradição, somos um país marcado pela improvisação e pelo diletantismo; não é fácil implantar a cultura da profissionalização artística.

Para você que lida com obras literárias cotidianamente, o que pensa dos tablets e e-books que substituem aos poucos os livros tradicionais?

Mas isso não existe! Uma coisa não substitui a outra, e sim amplia, expande, desdobra, complementa, dá outra cara. Se você vai ler García Márquez no tablet ou no impresso… Bem, talvez no tablet você possa tocar a tela e ver um trecho do livro transformado em filme – e aí não será mais o romance de García Márquez, será outra obra, multimídia, de efeitos semiológicos e cognitivos diferentes da leitura clássica. O texto literário e o texto multimídia são diferentes, mas um não rivaliza em nada com o outro. Mais preocupante, na minha opinião, não é o suporte físico, mas a função do texto verbal. É sabido que, em relação ao aumento populacional, em todo o mundo há cada vez menos leitores (entendendo “leitores” como pessoas que conseguem interpretar o que leem e têm o hábito da leitura) e isso faz a gente imaginar que ler será, cada vez mais, uma prática de elite.

Qual é a relevância de se escrever com estilo em um mundo tomado por blogs e redes sociais?

Não sei se entendi bem o que quer dizer com “estilo”, mas seria o caso de perguntar: por acaso não existem blogs mais bem escritos e editados que outros? E por acaso não há achados originalíssimos em redes sociais, boiando em meio a um oceano de clichês e bla-bla-blás? Sua pergunta indica uma confusão muito comum entre veículo X conteúdo e forma de expressão. Podemos fazer um paralelo com a moda: a princípio, qualquer pessoa pode escolher as roupas e acessórios que quer usar – mas isso não garantirá estilo, elegância ou originalidade, harmonia ou vanguarda, bom gosto, personalidade. O acesso ao computador e à rede não faz, por si só, você ser capaz de escrever algo que interesse aos outros.

Na sua opinião, como emplacar a Escrita Criativa em veículos tão imediatistas como jornais e revistas semanais, que prezam pelo lide (quem, quando, onde, por quê?)?

Nenhuma história bem contada pode prescindir do “quem-quando-onde-por quê”. Isso já estava anotado há 2.400 anos, na Poética de Aristóteles. Na imprensa de hard news, o lide é fundamental por uma questão de clareza e objetividade; a informação é um serviço de primeiríssima necessidade. E a Escrita Criativa não ensina a escrever bonito, mas a tomar consciência do processo criativo, dos recursos narrativos, das possibilidades de explorar melhor a língua, da adequação ao que você quer fazer – é uma nota? um perfil? um artigo analítico?

Quais são os seus escritores favoritos? Por quê?

É mais fácil dizer do que não gosto: narrativas que não saem do lugar, textos jornalísticos em primeira pessoa, lugares-comuns (na forma, no tema, na vida), textos que jorram palavrório (daquele autor vaidoso, atleta sarado que malha na ginástica vernacular), textos amanhecidos (aqueles que acham que estão “inovando” ou “chocando a sociedade”, geralmente de autores que não leram os clássicos) e textos umbilicais (aqueles que só o autor entende, e o sujeito ainda se orgulha disso).

Para finalizar: qual é a importância do Jornalismo Literário para a agudeza dos leitores de todo o Brasil?

Jornalismo Literário é importante porque alia informação bem apurada àquele estilo tão eficiente, mas TÃO eficiente, que o leitor não consegue despregar os olhos do texto. Acontece que o Jornalismo Literário é apenas um dentre tantos caminhos para se contar uma história. Tudo é questão de adequação. Não dá para aplicar Jornalismo Literário sobre as dezenas sorteadas na Mega Sena, a não ser que se faça uma matéria de observação dos bastidores do sorteio ou (melhor ainda) um perfil do sujeito que se responsabiliza pela lisura do sorteio e, por isso, nunca pode apostar. Taí, dei uma pauta prontinha pra você! Ou, quem sabe, te dei o fio da meada de um conto, um romance…

No mês de fevereiro, Rosangela Petta concedeu uma entrevista para o canal JovemPan Online sobre a Oficina de Escrita Criativa. Confira o primeiro trecho da entrevista no vídeo abaixo:

Matéria publicada por www.grappa.com.br

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