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Entrevistas

Ben Heine: a mistura da realidade e da imaginação

© Ben Heine 2011

Benjamin Heine é definitivamente um artista completo: pintor, fotógrafo, ilustrador, desenhista, caricaturista (e até jornalista!). Para ele não existem fronteiras. Sua família é originária da Bélgica, mas em 1980 seus pais tiveram que viajar para o continente africano por questões profissionais. E foi na Costa do Marfim que Ben nasceu, em 1983. Sete anos depois, ele e a família voltaram para Bruxelas (Bélgica), onde ele teve a oportunidade de cursar a faculdade de Jornalismo. Estudou escultura e pintura em Hastings, na Inglaterra, e morou seis meses na Holanda. Hoje em dia, vive e trabalha na Bélgica. Ben garante que aposentou as charges políticas que fazia na época de faculdade e hoje se dedica a outros projetos. Um deles, a série “Pencil vs. Camera”, traz fotos de sua autoria modificadas por outra realidade, que é embutida por meio de desenho. Essa série, por sua inventividade e inovação, ganhou os meios de comunicação do mundo inteiro, dando notoriedade aos seus outros projetos também. E ele não para de criar. Pretende atingir a marca dos 100 desenhos no “Pencil vs. Camera”.

Você morou na Costa do Marfim e hoje vive na Bélgica. Quais são as diferenças entre a vida nesses dois países?

Eu era apenas uma pequena criança, mas ainda tenho muitas memórias boas da vida que levávamos naquele lindo país. Na Costa do Marfim, tudo era mais colorido, havia mais luz, inúmeros sorrisos e felicidade no rosto das pessoas. Já a Bélgica é mais fria e menos colorida, mas é um país muito legal, cheio de surrealismo.

Quando você se deu conta de que o desenho era a sua paixão? Você era novo à época?

Ah, sim, eu era muito jovem quando descobri que era apaixonado por isso! Toda criança adora desenhar. No meu caso, esse interesse por desenho nunca desapareceu…

Como a internet contribuiu para a propagação de seu trabalho?

A internet sempre foi útil para mim. Em minha opinião, ela é uma maravilhosa ferramenta para qualquer um que queira ser reconhecido internacionalmente. As plataformas online são fáceis de usar e não são caras. Se a sua arte realmente traz algo novo, ela irá ser vista por muitas pessoas. Continue tendo esperanças; continue trabalhando. Eu comecei a compartilhar o meu trabalho em três sites desde 2006: blog, Flickr e o DeviantArt. Online e offline. No final das contas, os dois são importantes. É primordial ter uma presença consistente não só na web, mas também no mundo real. Isso é o mais interessante em minha opinião.

Como surgiu a sua ideia do “Pencil vs. Camera”? Você está gostando de realizar esse projeto?

A ideia veio em um momento muito aleatório. É sempre um imenso prazer começar uma nova imagem para a série “Pencil vs. Camera”. Eu tenho focado nesse trabalho específico há quase um ano (não consigo acreditar que o tempo tenha passado tão rápido!). O conceito original é o resultado de uma evolução gradual e de explorações gráficas pessoais. Na ocasião, eu fiz um desenho dois anos antes de começar o projeto do “Pencil vs. Camera”. Foi só um esboço, mas o conceito é muito similar. Depois de algum tempo, percebi que seria interessante misturar minhas duas paixões criativas: fotografia e desenho, realidade e imaginação. Eu só precisava achar a melhor maneira para fazer isso. Nesse projeto, eu gosto de focar na arquitetura, nos retratos e nos animais. Mas dentre muitos outros, os principais temas abordados em “Pencil vs. Camera” são o amor e a amizade. Nessas peças, minha mão está claramente visível sempre. Essa foi uma escolha difícil, mas enfatiza a conexão íntima entre aquele que vê e a ação que está ocorrendo no pedaço de papel. E o conceito certamente irá evoluir com o tempo.

Por que você acha que a série “Pencil vs. Camera” teve uma recepção tão positiva do público mundial?

Eu não tenho certeza da resposta… Mas do que eu tenho certeza é que a maioria das pessoas aprecia essa série, não importa a língua, a cultura ou a nacionalidade, algo que é realmente inacreditável. Eu acho que essas obras falam para a criança que ainda existe dentro de cada um de nós. Além disso, são muito simples e acessíveis. Há algo de universal nelas, e a imaginação certamente não tem fronteiras.

E a série “Digital Circlism”? Como ela começou?

Há alguns anos eu faço retratos. E eu sempre gostei de utilizar pequenos elementos que, quando vistos todos juntos, formam uma nova estrutura. Eu gosto de adicionar textura e pequenos detalhes às imagens nas quais estou trabalhando. Então tentei com diferentes formatos (triângulos, quadrados…) e, quando testei os círculos, achei que tinham ficado muito legais e especiais. Em minha opinião, essa série é menos criativa que os meus outros trabalhos. Eu a vejo mais como um deleite para os olhos e como um desafio técnico, porque as imagens dessa série sempre levam muito tempo para serem feitas, são difíceis.

Como sua experiência no Jornalismo mudou o seu modo de fazer arte?

O Jornalismo teve uma influência gigante em meu modo de perceber o mundo. Durante os meus estudos, comecei a fazer gravuras com conotações políticas fortes (um pouco depois de terminar os estudos, parei de trabalhar nessas ilustrações). Eu acho que esse período da minha vida realmente teve um efeito direto nas minhas fontes de inspiração. Como eu costumo dizer, eu era um artista antes mesmo de ser um ativista, um jornalista. Hoje não sou mais um ativista; mas continuo sendo artista, para sempre. O Jornalismo também me ajudou a ser curioso sobre tudo, ser desejoso de ler notícias do mundo inteiro, ter um olhar crítico sobre o que está acontecendo em geral e a verificar sempre duas vezes aquilo que irei dizer ou fazer…

Inspiração, criatividade… Para você, de onde elas vêm?

Há algo de mágico e divino sobre isso. Eu acho que elas vêm dos eventos que ocorrem ao nosso redor. Os artistas estão acostumados a encontrar esses pequenos universos criativos escondidos ao redor de nós. Para mim, esses momentos são resultado de eventos passados da minha vida e de especulações para o futuro. Eles também são fruto de uma longa e demorada evolução. Inspiração e criatividade estão em qualquer lugar! Cada coisa que eu vejo ao meu redor poderia ser o estopim para um projeto criativo.

Você tem um estilo pessoal em suas obras de arte? Alguns de seus desenhos são surrealistas… Você gosta do surrealismo?

Certamente! Eu amo o surrealismo! Mas eu não acho que tenho um estilo particular. A uniformidade e a mesmice nunca são a minha prioridade; elas diminuem o potencial do criador. Os meios e os instrumentos que eu uso definem o meu estilo, e eu utilizo muitos. Criatividade, qualidade, trabalho duro e inovação são meus principais lemas.

Hoje em dia, há um grande conflito entre os meios tradicionais de se fazer arte (com tinta e pinceis) e os meios tecnológicos (com programas de computador). O que você acha disso? Esse confronto é válido?

Sim, há uma grande diferença entre o digital e o tradicional. Mas os resultados são geralmente muito parecidos no final das contas. Eu não vejo isso como um conflito ou um problema; as duas formas de arte podem ser misturadas de maneira harmoniosa. Utilizo tudo isso no meu trabalho diário. “Pencil vs. Camera” é um bom exemplo disso… Eu acho que os artistas têm que viver de acordo com o seu tempo. Vai haver novas ferramentas disponíveis daqui a 50 anos também. Atualmente, os softwares e hardwares estão sendo empregados por diversos criadores e expressam os seus sentimentos de maneira até mais poderosa que a arte convencional.

Em algumas obras do “Pencil vs. Camera”, você utiliza personagens da Disney, como o Mickey e a Sininho. Por quê? Você é um grande fã de Walt Disney?

O Walt Disney é incrível e trouxe uma grande contribuição para nossa cultura ocidental. Então, utilizei esses dois personagens como um tributo ao seu enorme legado e visão.

Para finalizar: o que é arte para você?

Para mim, arte é uma porta para a imaginação, a liberdade, as esperanças, a tranquilidade e a felicidade.

© Ben Heine 2011

OBS.: Ben Heine publicou nosso bate-papo na íntegra em seu blog oficial. Confira por meio desse link.

Para conhecer ainda mais o trabalho de Ben Heine, acesse o seu site oficial (www.benheine.com) o seu blog (benjaminheine.blogspot.com) ou o seu Flickr (www.flickr.com/photos/benheine/sets/).

Matéria publicada por www.grappa.com.br

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